Policiais receberam ordem para prender homens negros e ligá-los a crimes não resolvidos

Tudo começou com um caso aparentemente isolado na tranquila Biscayne Park, cidade da Flórida localizada ao Norte das praias de Miami, que foi parar na instância federal da Justiça dos Estados Unidos. Um antigo chefe da polícia local e dois policiais estão sendo julgados por fazer uma falsa acusação de roubo contra um adolescente de origem haitiana. O objetivo seria “resolver” um caso antigo e “limpar” as estatísticas da delegacia para impressionar as autoridades locais.

A coisa toda acabou mostrando-se ainda mais séria. Primeiro, porque aparentemente não foi um caso isolado. E, segundo – o principal -, porque o método escolhido foi a perseguição sistemática a moradores negros. É o que apontam documentos de uma investigação interna de 2014 obtidos pelo jornal Miami Herald.

Nos documentos, o depoimento do policial Anthony De La Torre deixa bem claro o procedimento criminoso. “Se eles tiverem pequenos crimes ainda sem solução… Se você encontrar qualquer pessoa negra andando pelas ruas e ela tem algum tipo de ficha corrida, prenda para que possamos acusá-los por todos esses crimes”, afirmou De La Torre. “Eles estão fazendo isso simplesmente para ter uma taxa de 100% na solução de crimes na cidade.”

De La Torre foi um dos quatro policiais ouvidos na investigação de 2014 e é o único a citar a perseguição específica a homens negros, mas uma ex-funcionária da prefeitura chamada Heidi Shafran, que recebeu diversas cartas de policiais insatisfeitos, disse que a mensagem aos oficiais da patrulha de ruas era clara. “As cartas mostram que a polícia estava fazendo muitas coisas ruins. Deixam claro que policiais tinham ordens para abordar pessoas de cor e culpá-las por crimes”, disse Shafran ao jornal. Os outros três policiais ouvidos na investigação de 2014 corroboram a informação de De La Torre, mas não citam a cor da pele dos falsamente acusados. Referem-se apenas a “pessoas aleatórias”.

O chefe da polícia de Biscayne Park, Raimundo Atesiano, entregou seu cargo ainda em 2014, durante as investigações iniciais. Ele e o segundo em comando há época, o capitão Lawrence Churchman – também acusado de fazer comentários racistas e sexistas na delegacia – negam as acusações.

Os números da delegacia entre os anos de 2013 e 2015 também dão indícios dos crimes cometidos pela polícia local. Atesiano foi o chefe de polícia nos dois primeiros anos. No período, 29 dos 30 casos de assaltos, roubos, furtos e arrombamentos foram considerados resolvidos. Em 2015, sem Atesiano no comando, nenhum dos 19 casos foi solucionado.

Ainda não há nenhuma prova definitiva, mas o jornal informa que quase todos os 29 casos solucionados tinham acusações contra homens negros. Em um desses casos, um homem negro chamado Erasmus Banmah, de 35 anos, foi acusado de cinco arrombamentos de carros no mesmo dia, em fevereiro de 2014. Todas as acusações foram imediatamente retiradas pela promotoria, já que os policiais não colaboraram com a investigação.